Os Caparaós e o Mar, a História de um Povo (Parte Dois)

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Esta é a “História dos Caparaós“, uma série criada por Roner Braga Padilha (foto, in memoriam) no ano de 1999. O autor era ocupante da Cadeira 11 da Academia Iunense de Letras (AIL) até seu falecimento em 2014.

“Os Caparaós e o Mar” é uma sequência da série inicial “A Lenda dos Caparaós” já publicada aqui neste blog, onde conta a história de um povo que viveu há muito tempo em nossa região.

Leia a série completa nos links:

Viaje com a gente na leitura desta história incrível pela Região do Caparaó, A Montanha Sagrada do Brasil.

Capítulo I

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O Mochileiro no alto da Montanha Sagrada do Brasil

Muito apegado às suas terras e à sua região, os Caparaós, enquanto nação, nunca haviam deixado os limites da Montanha Sagrada. Apesar de exploradores, gostavam de chegar ao cume das Montanhas ao redor do Pico mais alto, e poder vislumbrar toda beleza da região ao redor da Montanha Sagrada, ou, do horizonte da grande capa redonda da Mãe Terra.

Mas, os Caparaós já tinham ouvido falar de um povo que habitava as margens de um grande lago. Tão grande, que não se via outra margem, mesmo que da mais alta montanha.

Os Caparaós, sabiam que o grande lago ficava na direção que surgia o Pai Sol. E o conhecimento, era a base da existência dos Caparaós. Conhecer, para os habitantes da Montanha Sagrada, era azimute de sua vida. Eram tão ávidos pelo conhecimento, que sua curiosidade já era conhecida pelas tribos que habitavam a direção ao norte da Pedra do Altar ou, dos povos que habitavam as florestas na direção onde o Pai Sol deitava. Para o sul era a mesma coisa.

Um dia, reunindo o Conselho da Tribo, decidiram que era chegada a hora da grande aventura por mais conhecimento: Organizar grupos de Caparaós mais jovens e, enviá-los como flechas mágicas, que voltariam mais tarde com o conhecimento do que viram e aprenderam.

Foi uma época de grandes festas, com danças e cantorias, buscando atrair a força da Montanha Sagrada. Ela protegia aqueles bravos Caparaós, em sua missão de reconhecimento. A busca de conhecimento sobre a grande Mãe Terra.

E os Caparaós partiram finalmente. O alto da Montanha Sagrada, nunca esteve tão iluminado, no manto da noite. As tochas acesas, serviriam como lembrança, de que em espírito, os Caparaós estariam recebendo a proteção da tribo. Era final de verão.

Capítulo II

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O Mochileiro no alto da Montanha Sagrada olhando para o Pico do Cabritos

A partida do grupo de Caparaós, cuja missão era chegar até o grande lago, foi procedida de muitos preparativos e muita discussão. Aliás, nada era decidido por aquele povo, sem que todos manifestassem sua opinião. Era uma zoeira só! Pareciam abelhas, quando algum tema importante era discutido.

Do alto da Montanha Sagrada, no Pico onde eles mantinham uma criação de cabritos, traçaram a rota na direção de onde surgia o Pai Sol. No final do verão, o Pai Sol surgia onde se avistava ao longe, um pico em forma de um vulcão.

Decidiram que subiriam pela esquerda do pico que lembrava a cara do Grande Chefe, seguindo o rio de águas amarelas, até sua nascente. De lá traçariam nova rota, depois de observarem a posição da Montanha Sagrada, o Pai Sol se deitando e levantando, aprendendo sempre, o caminho de volta.

Sendo os primeiros da nação Caparaó a empreenderem aquela aventura, o grupo sentia emoções e alegria nunca sentidos, já que caminhavam em direção ao desconhecido, apesar de saberem que tudo fazia parte da grande Mãe Terra.

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Ao chegarem à nascente do rio de águas amarelas, puderam observar que a Mãe Terra diminuía suas montanhas, igualando-as em morros redondos, na direção de onde surgia o Pai Sol. Montanhas como a dos Caparaós, nenhuma à vista. Apenas a pedra em forma de vulcão, sobressaia no horizonte.

De onde estavam, numa linha reta com a Montanha Sagrada, o Pai Sol surgia à direita. As folhas já começavam a cair das árvores. Na Montanha Sagrada, viriam as noites cálidas, lembrando que breve, começaria a soprar os ventos gelados do sul.

Uma angustia e incerteza invadiu o grupo de Caparaós. E ali, naquele, alto, onde ainda podiam, nas noites enxergarem as tochas acesas no alto da Montanha sagrada, os Caparaós fincaram acampamento esperando que a energia de seu povo os renovasse. Aí então, continuariam sua busca pelo grande lago.

Capítulo III

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Camping no Nariz do Colossus

Acamparam na nascente do rio de águas amarelas, enquanto aguardavam a ordem espiritual de partida em direção ao grande lago. Curiosos como sempre, os Caparaós foram explorar a região em volta.

Perceberam, que estavam em linha reta com o pico da Cara do Grande Chefe, apontando para o sul. Descobriram a nascente de um rio que crescia caudaloso, passando atrás da montanha com a Cara do grande Chefe. Chamaram de Rio do Norte, pois de sua nascente, seguia para o sul. Por correr paralelo a pedra em forma de vulcão, decidiram não descer por ele.

Em direção ao sol nascente, descobriram um outro rio, com três braços que enchiam seu leito inicial. Perceberam também, que seu curso ia em direção a Pedra do Vulcão. Inúmeras nascentes alimentavam aquele rio, com cascatas, lagos, recantos, florestas, magia. E um grande amor nasceu por aquele lugar.

Ao lado da Pedra do Vulcão, uma outra pedra, chamava a atenção, devido o seu formato e cor. Em determinados momentos do dia, parecia adquirir um tom azul, recortando o azul do espaço infinito.

Os Caparaós então se alegraram. Haviam percebido o sinal da Grande Mãe Terra. Deveriam seguir o caminho do rio que ia em direção ao Pico do Vulcão, deixando a Pedra Azul à esquerda. Tomariam a direção dos ventos frios do inverno, até alcançarem o Pico do Vulcão.

Quando chegassem na base daquele Pico, os Caparaós iriam escalar suas encostas, e lá do alto, de sua ponta, acenderiam suas tochas, para que nas claras, brilhantes e limpas noites de inverno, a Nação Caparaó , do alto da Montanha Sagrada se alegrasse e fizesse festas, porque aquele grupo continuava sob a proteção dos deuses.

E, passado então quase todo outono, os Caparaós aventureiros iniciaram a descida do rio que escolheram. Sabiam que o frio da Montanha Sagrada, seria deixado para trás. Estavam descendo.

Imaginavam o Grande Lago, no interior, da Mãe Terra, onde uma grande bola de fogo, mantinha suas águas evaporando, para formar as chuvas que alimentavam as florestas dos Caparaós.

Capítulo IV

Guia Completo do Pico Colossus
Mar de Nuvens visto do alto da Pedra do Grande Chefe (Pico Colossus)

O lugar onde iniciaram a descida, rumo ao Pico do Vulcão, de onde traçariam a rota rumo ao Grande Lago, ficava em uma floresta diferente das outras. No final do outono, ali fazia muito frio, e os Caparaós denominaram aquela floresta de Mata Fria.

Dezenas de córregos, cascatas, grutas e recantos maravilhosos, iam os Caparaós encontrando, a medida que desciam pelo rio escolhido. A paisagem mudava. As pedras, que do alto da Montanha Sagrada não passavam de morros redondos no horizonte, agora era a curva do rio mais próxima. A orientação era a trajetória do Pai Sol e a descida do rio.

De repente desembocaram no que pareceu magia. O rio abriu-se e seu leito ficou enfurecido. À direita, grandes pedras negras. À esquerda, na distancia de meio dia de caminhada, o Pico em forma de vulcão. Descobriram ainda, um rio menor, porém caudaloso, que pareia vir do Pico que buscavam.

E lá foram eles, agora rio acima, em busca das alturas, que lhes dariam a visão da Montanha Sagrada e a do grande Lago. Com muito esforço, alcançaram a base da Montanha do vulcão e iniciaram a subida. Chegar ao alto foi uma festa. Lembrava a subida ao Pico dos Cabritos na Montanha Sagrada.

Caía a tarde, e os bravos Caparaós só pensavam em buscar a luz das tochas na Montanha Sagrada. E não tardou o aparecimento delas. Vieram cedo porque seria noite de lua cheia. Só então olharam na direção do sol nascente.

Começava a surgir grande, amarela e brilhante, a considerada Mãe da Nação Caparaó: a Lua. Perceberam então, que abaixo dela milhares de pontos brilhantes confundiam todo seu conhecimento. De onde vinham aquelas luzes prateadas? Decididamente era um problema para ser discutido na noite seguinte. Estavam cansados. Dormiram felizes. Como sempre!

O mar
O Mochileiro em frente ao “grande lago”.

Capítulo Final

Da pedra do vulcão ao Grande lago, os Caparaós calcularam uma distância de duas luas cheias de caminhada. E isto foi feito com muita alegria, pois a região de baixada que encontraram, contrastava com os picos que circulavam o Grande Lago.

O rio que seguiam agora, apresentava, margens muito distantes em alguns lugares. O peixe assado, era o prato do dia a dia. Admiraram o pássaro branco de longas pernas, que os olhavam curiosos, protegidos pelas ilhas no meio do rio.

Em direção ao Grande Lago, à esquerda, um monte destacava-se no horizonte reto. Deveriam chegar em breve. Na paisagem plana, com as montanhas ao fundo, os Caparaós se demoraram, ora se deixando morrer como o dia, ora sentindo saudades de casa.

Já era verão novamente. Puderam assistir extasiados, aos espetáculos das tempestades chegando ao longe. Os relâmpagos e trovões, riscavam e explodiam no céu, despejando em seguida as águas que enchiam as nascentes e rios.

Observavam também, a beleza daquelas matas incrustadas em pequenas elevações em direção ao Grande Lago. À medida que se aproximavam, a mata diversificada cedia o lugar a uma floresta uniforme, com raízes fincadas nas águas. Estranhas criaturas, parecendo aranhas enormes, habitavam aquele lugar.

Havia cheiro de sal no ar. O calor os obrigava a frequentes paradas para refrescar. Um barulho de cachoeira parecia vir da direção do Grande Lago. De repente, o rio desaparece, engolido por um horizonte infinito de água. Haviam chegado.

Roner Braga Padilha, o Autor

Roner Braga Padilha
Roner Braga Padilha (in memoriam)

Natural de Campos/RJ, Roner foi autor de inúmeras histórias, crônicas e Lendas do Caparaó. O autor foi professor, advogado, empresário e escritor durante os anos de sua vida em Iúna, onde viveu por mais de trinta anos até seu falecimento em 2014.

Professor Roner, como era chamado, foi um pioneiro do Caparaó e de Iúna, tendo sido um dos primeiros a mochilar por estas terras e descobrir as maravilhas que nela existem. Era um apaixonado por Iúna e pelo Caparaó.

É patrono da Academia Iunense de Letras (AIL) onde ocupou a cadeira nº 11. Foi militar, tendo servido no 38º BI em Vila Velha (ES). Recebeu título de cidadão iunense e foi fundador do Grupo Iunense de Amigos do Ambiente Natural (GIAAN).

Roner foi o autor da frase “Serra do Caparaó, A Montanha Sagrada do Brasil” quando do lançamento de um cartaz para o primeiro “EcoBike Amar Caparaó”, que foi um passeio de bicicleta em volta da Serra do Caparaó no ano de 1995.

Leia mais produções literárias do autor no Blog da Academia Iunense de Letras clicando aqui.

Leia a série completa nos links:

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A Serra do Caparaó vista em sua plenitude. Foto de Roner Braga Padilha (Anos 1990)

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Mochileiro com tatuagem no braço

Ulisses

Fundador da Casa do Mochileiro

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