A Lenda dos Caparaós, a História de um Povo (Parte Um)

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Esta é a “História dos Caparaós“, uma série escrita por Roner Braga Padilha (leia sobre o autor ao final deste post) no ano de 1999. O autor era ocupante da Cadeira 11 da Academia Iunense de Letras (AIL) até seu falecimento em 2014.

Não fique de fora desta aventura em série!

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A Lenda dos Caparaós

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Acampando na Serra do Caparaó – A Montanha Sagrada do Brasil

A “Lenda dos Caparaós” conta a história de um povo que viveu há muito tempo em nossa região. Aqui, “os Caparaós” nasceram, cresceram, caçaram e se multiplicaram. Até a chegada do homem branco, que mudou tudo.

Viaje com a gente na leitura desta história incrível e conheça esta que é apenas uma das muitas lendas que circulam pela Região do Caparaó, que foi batizada pelo autor como A Montanha Sagrada do Brasil.

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Lenda dos Caparaós, Capítulo 01

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Nascer do Sol no alto do Pico da Bandeira (ES)

Perguntado o que era importante para ele, na vida, o Velho Caparaó respondeu, com os olhos brilhantes, fitando o horizonte que descortinava, sentado no alto da Montanha Sagrada do Brasil:

“Acho importante o sol nascer e depois se despedir. Acho importante a lua brilhar, a chuva cair, as águas brotarem no alto da montanha e alimentar a vida; A sombra e o silêncio das matas, a majestosa imponência das pedras, o canto dos pássaros e seu vôo livre e, às vezes errante; A carícia do vento em tudo que há na terra… Essas coisas eu considero importantes. Elas me fazem felizes, alimentam meu espírito e me fazem sentir parte do universo.”

Autor: Roner Braga Padilha (in memoriam)

Capítulo 2

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A Pedra da Tia Velha (ou Pedra do Altar) vista de Iúna.

O que o Velho Caparaó gostava mesmo era de contar histórias. De seu povo e de sua região. Uma delas dizia a respeito de como surgiram nossas montanhas.

Segundo ele, nossa região em época muito remota, havia sido um enorme vulcão. Quando esse vulcão começou a se acalmar, caiu dos céus uma chuva de enormes pedras, indo uma delas – a maior, colidir com a capa já resfriada da imensa cratera.

Fora um choque colossal. A cratera se abriu em várias partes, formando o que hoje vemos como as Serras do Caparaó, Seio de Abrão, Palmital e Beraba. A ponta do que sobrou da pedra que veio do espaço, é hoje a conhecida Pedra da Tia Velha.

Depois do estrondo, durante muito tempo o que restou foi a escuridão, provocada pela poeira amarela no ar. A poeira tinha vindo do espaço, e junto com ela, as primeiras formas de vida.

Muitas outras colisões aconteceram na mesma época, em várias partes do planeta. Mas isto já não era história de Caparaó.

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Capítulo 3

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A beleza do Caparaó e das águas que descem em direção ao mar.

“Chegará o dia, em que o homem esquecerá completamente que o sol está acima dele. Olhará em frente, para os lados, para trás, mas, poucas vezes para cima.”

Desta vez, o Velho Caparaó falava sem interlocutor e sem platéia. Falava para o horizonte em direção ao mar. Falava para as estrelas, para o nascer da lua. Falava ao sol nascente e poente. Falava para a correnteza do rio, aos peixes na piracema, às cachoeiras que conhecia e amava. Na floresta, conversava com as árvores, plantas, flores, pedras, vales, cavernas, pássaros e animais.

Sem testemunhas, o Velho Caparaó depositou, muitas vezes, suas lendas, nas águas que desciam em direção ao mar, levadas pelas correntezas do Caparaó. Outras tantas foram passadas de geração em geração.

Capítulo 4

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O Mochileiro no alto da Montanha Sagrada

Numa Época em que aos grandes lagartos habitavam o vale dos rios amarelos e das cachoeiras, as pedras do lado do sol nascente ainda represavam as águas, formando um grande lago que ia da Cachoeira da Fumaça ao Rio Pardo.

Era tempo das grandes serpentes aquáticas, dos pássaros com garras enormes, e os grandes lagartos, que com suas estrondosas passadas, avisavam sempre às suas vítimas de sua chegada.

Nesse tempo, os Caparaós habitavam as encostas do Pico Colossus e da Serra do Caparaó. Chegar até aos vales que avistavam do alto, era uma aventura que mobilizava todas as tribos, que incluíam nos preparativos, até esperar a chegada da estação das águas.

Segundo o Velho Caparaó, com a chegada das tempestades e os céus despejando trovões e relâmpagos, os bichos se aquietavam, podendo os nativos percorrer as trilhas abaixo, em sua maioria abertas pelos grandes lagartos. Era o tempo de treinar os jovens para que a nação Caparaó sobrevivesse.

Capítulo 5

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O Mochileiro no alto do Pico Colossus, ou Pedra do Grande Chefe.

Os Caparaós eram como todos os outros animais: LIVRES! O único bem que eles preservavam como a própria vida, era a liberdade. Eram livres amantes do silêncio, por respeito aos sons da natureza. Sua admiração por tudo que podiam ver e sentir, os fazia reverenciar o canto dos pássaros e a voz de cada animal visível e em liberdade.

Deleitavam-se com o sussurrar das centenas de cachoeiras da Serra do Caparaó e com os revigorantes goles de águas cristalinas que saciavam sua sede e calor. Perambulavam por aqui e por ali, errantes, apenas pelo prazer de descobrir novos encantos e recantos.

Nestas lembranças o Velho Caparaó costumava silenciar, embalado pela névoa que pairava no ar, quando a nuvem de pequeninos pássaros desaparecia em direção ao norte. Chegara o inverno.

Capítulo 6

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Consta que viviam felizes.

Colocando a liberdade como ideal máximo de vida, os Caparaós eram ciosos dos hábitos que deveriam cultivar, para estar sempre na trilha reservada à raça humana. Segundo o Velho Caparaó, um dos hábitos mais antigos da tribo na região, era o de partilhar o conhecimento. Se fosse conhecimento e propiciasse a união e sobrevivência dos nativos, inexistia a hierarquia de importância dos assuntos. Conhecimento era evolução, outro hábito cultivado pelos Caparaós.

Assim, desde o nascimento, os nativos recebiam, à medida que evoluíam, as informações que a tribo já acumulava desde épocas remotas.

Naqueles tempos – costumava concluir o Velho Caparaó -, estar em harmonia com a natureza, alimentar-se, contar histórias, conservar o fogo, explorar a região, brincar nas cachoeiras, compunha o manual de sobrevivência dos nativos. Consta que viviam Felizes.

Capítulo 7

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No alto da Serra do Caparaó.

Sobre as diversas tribos existentes, conta o Velho Caparaó, que todas tiveram origem nas tribos que viviam nas encostas do Caparaó e da Serrinha.

Houve uma época que o deus da fertilidade superou o poder dos demais.

Os Caparaós de espírito nômade e acostumados a viverem em liberdade, cresceram em número nunca visto, criando uma época de difícil convivência. A terra era de todos, mas o espaço entre os membros da tribo havia diminuído, criando conflitos por causa da falta de liberdade.

Segundo a lenda, um nativo de cabelos brancos e longos, num gesto inédito, reuniu a todos pelos lados do Caparaó e, dividiu a tribo em várias outras, apontado do alto onde cada uma deveria se estabelecer. Conquistar e sobreviver nos espaços habitados pelas grandes feras, era o desafio daqueles grupos.

Lançaram-se com alegria e espírito de aventura, na viagem que escreveria a história dos Caparaós, até a chegada do homem branco. A partir daí, suspirou o Velho Caparaó, não existe história do meu povo. Só lendas.

Capítulo 8

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Caminhadas Ecológicas na base do Pico Colossus (Pedra do Grande Chefe)

Sentado no alto da pedra que veio do espaço, o Velho Caparaó relembrou a lenda que contava a origem dos nomes das pedras e montanhas de nossa região.

Fascinados pelas águas que desciam da Grande Montanha, os nativos passaram a chamar a si mesmo de CAPARAÓS. A pedra que veio do espaço, chamaram de Pedra do Altar, pela energia positiva que sentiam quando chegavam até ela. Era lugar de reverência aos deuses. A pequena montanha na direção do sol nascente, chamaram o Pico mais alto de Pedra do Grande Chefe.

Ainda na direção do sol nascente, deram o nome de Pico do Vulcão à silhueta que recortava o horizonte. Para o norte, pouco distante da Pedra do Altar, definiram como Pontões, as formações de pedra que apontavam para o céu.

Assim – explicou o Velho Caparaó -, após eternizar as formas que marcavam seu horizonte, os Caparaós passaram a individualizar as inúmeras nascentes que refrescavam a região.

Mas isto, finalizou o Velho Caparaó, já era outra história.

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Capítulo 9

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Camping no Nariz do Colossus (Pedra do Grande Chefe)

Conversando certa vez, com um grupo de nativos, um deles perguntou ao Velho Caparaó, como seus antepassados contavam sobre a criação da Grande Mãe Terra.

Com os olhos voltados para o oriente, o Velho Caparaó repetiu a história que ouvira da geração anterior, e assim desde o princípio.

Falamos Grande Mãe Terra, porque ela existia assim, desde a criação do universo. Certo dia porém, uma grande massa gelada, maior que a Mãe Terra, colidiu com ela. A Mãe Terra, um pedaço do Pai Sol, resplandecia em luz e calor. Apesar da colisão cósmica, no choque entre os dois, surgiu o nosso planeta, evoluindo até os nossos dias.

Na massa gelada, vinha a semente da vida. Nos mares que se formaram no princípio, a semente germinou e, até hoje não parou de evoluir.

Depois disto, do alto da Pedra da Tia Velha onde estava com o grupo, o Velho Caparaó virou-se para o ocidente, absorvendo-se na prazerosa tarefa de assistir o Grande Pai Sol desaparecer no horizonte.

Capítulo 10

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Caparaó, águas que rolam das pedras.

Havia uma cachoeira na Montanha Sagrada, onde um dia o Velho Caparaó aquietou-se para assistir o sol se deitar do outro lado da terra.

A fria noite de inverno que se avizinhava, pelos tons que ia a tarde adquirindo, fez o Velho Caparaó se encolher sob a manta de pele que usava. Os morcegos já sabilavam o ar escuro da floresta e, enquanto o ocidente se tingia de vermelho, o Velho Caparaó teve a sua mais terrível visão, numa das lendas que marcaram o início do fim, da Nação Caparaó.

Sobre as nuvens que baixavam ao solo anunciando o rigor da noite, o colorido do horizonte deixou vislumbrar a chegada de uma tribo numerosa, vestida dos pés à cabeça, carregando o relâmpago e o trovão na cintura.

Apesar da heróica resistência dos Caparaós e, depois de muita violência e tristeza, as tribos foram quase todas dizimadas, tendo os últimos se refugiado no ponto mais alto da Montanha Sagrada. E durante muito tempo, não se ouviu mais falar dos primeiros habitantes da Serra do Caparaó.

Capítulo 11

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Mar de Nuvens visto do alto do Pico Colossus

Os Caparaós enxergavam a morte com naturalidade. Reverenciavam, porém, seus mortos, com danças, gritos e contando tudo que recordavam a respeito do Caparaó silencioso. Ao entardecer, o levavam para o alto da Montanha Sagrada. Ficava mais perto do Pai Sol.

Segundo o Velho Caparaó, a energia que vinha do Pai Sol, levava o Caparaó silencioso a voltar mais rápido à Mãe Terra, fazendo então parte da paisagem onde viveu. Por isso a Nação Caparaó amava, respeitava e era feliz junto ao ambiente natural. Até mesmo uma simples folha seca, podia ser parte do irmão que se fora.

A lembrança destes tempos e destas lendas, fizeram surgir novas rugas no Velho Caparaó. Antes de novamente silenciar, o ancião voltou-se para o alto da Montanha Sagrada e fechou os olhos.

Capítulo Final

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Roner Braga Padilha, escritor natural de Campos/RJ. Foi um dos maiores precursores do turismo em Iúna e no Caparaó.

Exalar o último suspiro, no alto da Montanha Sagrada, (era o ideal de vida ou de morte), para a Nação Caparaó. Era um ideal. Afinal, como transportar cada um, até a pedra mais perto do sol, ao longo dos anos…

Lenda, história, estória… existiram mesmo os Caparaós? Esta é a magia deste paredão de granito, protegendo os vales ondulados que se estendem na direção do sol nascente.

Existiram mesmo os guerreiros com o trovão e o relâmpago na cintura? Existiu mesmo o Velho Caparaó? Como surgiram as lendas, que através dos tempos manteve a mística dessas montanhas azuis?

O alimento da vida, contido nas águas do Caparaó. O calor acariciante do sol no inverno, mantendo a vida e guardando a vida. A beleza rude de suas flores nos campos de altitude.

Serra, Montanha, Cordilheira… De que nome te chamam, se nem conhecem a energia que existe nas entranhas de teu ventre! A todos que pelo privilégio da vida descobriram a magia da sua existência, dedico as Lendas do Caparaó.

Caparaó! Águas que rolam montanha abaixo, alimentando a vida, mantendo a esperança, sobrevivendo aos habitantes que agora dependem dela.

Teatro gigante, o Caparaó assiste, através dos séculos, os atores escrevendo a historia em que só cabe o homem civilizado.

Roner Braga Padilha, o Autor

Roner Braga Padilha
Roner Braga Padilha (in memoriam)

Natural de Campos/RJ, Roner foi autor de inúmeras histórias, crônicas e destas Lendas do Caparaó. O autor foi professor, advogado, empresário e escritor durante os anos de sua vida em Iúna, onde viveu por mais de trinta anos até seu falecimento em 2014.

Professor Roner, como era chamado, foi um pioneiro do Caparaó e de Iúna, tendo sido um dos primeiros a mochilar por estas terras e descobrir as maravilhas que nela existem. Era um apaixonado por Iúna e pelo Caparaó.

É patrono da Academia Iunense de Letras (AIL) onde ocupou a cadeira nº 11. Foi militar, tendo servido no 38º BI em Vila Velha (ES). Recebeu título de cidadão iunense e foi fundador do Grupo Iunense de Amigos do Ambiente Natural (GIAAN).

Roner foi o autor da frase “Serra do Caparaó, A Montanha Sagrada do Brasil” quando do lançamento de um cartaz para o primeiro “EcoBike Amar Caparaó”, que foi um passeio de bicicleta em volta da Serra do Caparaó no ano de 1995.

Leia mais produções literárias do autor no Blog da Academia Iunense de Letras clicando aqui.

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A Serra do Caparaó vista em sua plenitude. Foto de Roner Braga Padilha (Anos 1990)

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