Os Caparaós, A História de Um Povo (Parte Final)

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Esta é a parte final da “História dos Caparaós“, uma série escrita por Roner Braga Padilha (leia sobre o autor ao final deste post) no ano de 1999. O autor era ocupante da Cadeira 11 da Academia Iunense de Letras (AIL) até seu falecimento em 2014.

Não fique de fora desta aventura em série!

Leia a série completa nos links:

Essas Histórias fazem parte da série iniciada com “A Lenda dos Caparaós” já publicada aqui neste blog, que conta a história de um povo que viveu há muito tempo em nossa região.

A segunda parte, que é a viagem dos Caparaós até o mar, você pode ler clicando aqui.

Viaje com a gente na leitura desta história incrível pela Região do Caparaó, A Montanha Sagrada do Brasil.

O que você vai ler neste post

  • A Chegada das Chuvas
  • A Estrela Brilhante
  • A Lenda dos Sonhos
  • A Saudação dos Andes
  • Os Caparaós e o Silêncio
  • A História de Um Povo
  • Roner Braga Padilha, O Autor

A Chegada das Chuvas

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Pôr do Sol em frente á Casa do Mochileiro, foto de Roner Braga Padilha (2012)

Sempre que o ar começa a dar sinais de ficar mais pesado, sufocante, e aos poucos as nuvens começavam a mudar seu formato e cor, os Caparaós adivinhavam a chegada das chuvas. Com festa.

Quase sempre as primeiras tempestades chegavam do sul, atingindo uma região muito bonita, onde existia uma pedra em formato de punho. E a natureza, em toda região da Montanha Sagrada, se preparava para receber o alimento dos céus.

Quando o calor chegava a ficar sufocante para os animais, dos céus vinha o estrondoso barulho do trovão, precedido de cintilante luz que riscava os ares. Era um espetáculo impressionante.

Os Caparaós costumavam subir na Montanha Sagrada ou Pedra do Altar, e, de lá, assistiam a luta entre raios e trovões, enquanto nuvens encobriam a luz do Pai Sol ou da Lua, tendo como testemunha os maravilhados Caparaós.

Do alto, podiam sentir a grande Mãe Terra, preparando-se para receber as águas que fugiam da luta nos céus. As florestas mudavam de cor, adquirindo o tom verde profundo. As pedras suavam no choque ente as águas dos céus e o calor que acumulava. E, depois, continuava assim porque se enchia de água e, a perdia em nascentes cristalinas.

Cascatas, cachoeiras, poços, córregos, rios, adquiriam um movimento espantoso e belo, enquanto a água serpenteava por entre as curvas, entre as montanhas. Ganhava então as partes mais baixas, abrindo-se aqui e ali em lagoas passageiras.

E toda aquela vasta região em torno da Montanha Sagrada, transcendia vida, beleza, brilho, mistérios, sombras, renovação. Mais uma vez, a Mãe Terra cumpria sua promessa de bem cuidar de seus filhos e, de tudo do qual seus filhos dependessem.

E os Caparaós então, desciam a Montanha Sagrada discutindo alegremente por qual trilha iniciariam novas descobertas. As chuvas proporcionavam estes passeios. Era verão.

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A Estrela Brilhante

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Pôr do Sol em Iúna/ES. Foto de Roner Braga Padilha (1998)

A estação das chuvas, sinônimo da alegria para a Nação Caparaó, trazia outras alegrias para aquele povo acostumado a adorar a natureza: o espetáculo de luzes e cores que unia o dia e a noite no entardecer.

Uma cena muito esperada pelos Caparaós, era o surgimento da luz cintilante que brilhava – tímida a principio -, sobre a Montanha Sagrada.

Postados, na encosta do Pico que lembrava a cara do Grande Chefe, ficavam em silêncio a compartilhar a mudança que a natureza operava. A Pedra do Altar, à direita, perfilava sua encosta escura em seu formato, recortada pela luz do Pai Sol, que deitava do outro lado da Montanha Sagrada.

E, a luz prateada aumentava seu brilho no céu. A noite de verão, sem brisa, silenciosa, levemente aquecida, reverenciava aquele momento de magia.

A luz prateada, brilhante, que pairava sobre a Montanha Sagrada, destacava-se na paisagem. Abaixo da montanha que lembrava a cara do Grande Chefe, havia caído a escuridão. No horizonte, somente o contorno da Montanha Sagrada se destacava.

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O que invadia o peito dos Caparaós, era uma grande sensação de incerteza e leveza. Contradição. Era como parar de pensar e sentir. Viver não viver. Uma forma de visualizar em sonho, a finitude de cada gesto, cada movimento, cada ação.

A cada ano, os Caparaós sabiam, que após a grande luta no céu, entre a luz e trovão, viriam as noites cálidas, trazendo na brisa da madrugada, sopro das noites frias do inverno. Chegariam as nuvens que levariam embora as lutas no céu. As folhas começariam a buscar o chão. E a incerteza era substituída, anualmente, pela fé na renovação, na reconstrução. Como a natureza, os Caparaós entendiam o círculo da vida. O ciclo da vida. A certeza da rotina, para os Caparós, era sua forma de reverenciar a vida que o Grande Chefe os havia presenteado.

E tudo isto vinha aos Caparaós, porque se maravilham com o fantástico brilho da estrela no céu. A estrela das tardes de verão.

A Lenda dos Sonhos

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A Caverna das Orquídeas, foto de Roner Braga Padilha

Os Caparaós eram um povo muito sonhador. Eram capazes de contar histórias sem fim, falando de paraísos, amores, festas, encontros, discussões, passeios… Possuíam um rico acervo cultural, guardado apenas pelos fugidios gases do espírito das lembranças.

E adoravam os sonhos!!! O sonho para um Caparaó era um troféu, um prêmio, um destaque, um altar, um sopro de alento, um momento de felicidade, um segundo de eterno navegar pelo infinito.

Após sonhar momentos de realidade, o Caparaó sorridente contava seus sonhos aos membros da tribo, e recebia atenção, presentes, reverência… Sonhar, para os Caparaós, era o caminho que haviam encontrado para estabelecer um diálogo com os deuses.

E realizavam festas memoráveis, apenas para conhecer o sonho de cada um, transformado em realidade, no palco dos sonhos que armavam, no centro de sua aldeia. E se deliciavam e agradeciam aos deuses, pelo presente maravilhoso que era o poder sonhar. E os sonhos poderem tornar-se realidade.

Certa vez, um Caparaó sonhou que o paraíso poderia ser eterno. Vacilante, porque se descobriu pensando que aquele seu paraíso poderia acabar, o caparaó sonhou o paraíso sem fim. Eterno. Descobriu depois, que havia sonhado com a própria realidade. E espalhou seus sonhos pelos quatro cantos da aldeia.

E assim viviam os Caparaós. Muitos sonhos desse povo que viveu na Montanha Sagrada passaram de geração em geração, chegando até nossos dias. E embalam nossos corações. E acalentam nosso espírito. E, tem a magia de colorir com os tons do arco-íris, nossos pesadelos mais pessimistas e sombrios ou, mesmo nossos sonhos em preto e branco.

Assim viviam os Caparaós.

Um povo que aprendeu a sonhar com os deuses.

A Saudação dos Andes

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Caldeirões do Pedregulho, Iúna/ES. Foto de Roner Braga Padilha (Anos 1990)

Apreciar o fim da tarde, com caprichosas nuvens emoldurando o horizonte recortado pela Serra dos Caparaós, era como chegar ao paraíso, para a Nação Caparaó, que adorava, aquele espetáculo dos deuses.

Numa destas tardes, estava um grupo de Caparaós explorando a região, quando resolveram subir a montanha que desafiava a Serra dos Caparaós de frente. De lá saldariam o Pai Sol que iria se deitar.

Subiram as íngrenes encostas, e, alcançando o ponto mais alto da montanha que se assemelhava ao rosto do Grande Chefe, postaram-se para a Montanha Sagrada.

E apreciavam ver chegar a cor da noite. De início, de um azul suave, penetrando timidamente o tapete amarelo à sua frente.

Foi então, que os Caparaós perceberam uma leve mudança no amarelo sobre a Montanha Sagrada. Antes uniforme, agora, podia-se ver a tonalidade dourada recortada, penetrada, profunda e irregularmente, pelo azul da noite que chegava. Somente sobre a Montanha Sagrada.

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E, entre maravilhados e intrigados, os Caparaós se perguntavam que espécie de sombra era aquela. E quanto mais o Pai Sol deitava suas luzes de fogo, mais a sombra alongava, perdendo nitidez à medida que mais azul escuro era a noite.

Até que um dos Caparaós, arriscou dizer que aquela sombra, era o Pai Sol projetando a imagem da Grande Montanha dos Andes, que ficava exatamente na mesma linha. Lá por cima da Montanha Sagrada do Brasil, onde desaparecia a luz do Pai Sol, estava a reverência da Grande Montanha dos Andes à terra dos Caparaós.

E os Caparaós, mais uma vez agradeceram aos Deuses, por habitarem aquele lugar sagrado e abençoado, onde foram colocados para viver.

E, despediram-se com respeito do Pai Sol, virando-se em seguida para saudar com renovada alegria, a vinda da Mãe Lua, prateada, feminina, misteriosa e bonita como sempre. Seria noite de lua cheia.

Os Caparaós e o Silêncio

Pico da Bandeira
Pico da Bandeira

Apesar de muito alegres e felizes, os Caparaós eram amantes do silêncio. Não a ausência de barulho, mas o silêncio do universo.

Era uma verdadeira arte, conseguir ouvir o silêncio do universo. Requeria aprendizado e ouvidos atentos, para entender os mais velhos que haviam atingido a evolução.

O silêncio, para os Caparaós, era o instante mágico do encontro com o Grande Pai. Começava com a percepção da própria existência da Grande Mãe Terra. Diante das coisas pequenas, o Caparaó se sentia imenso. Mas, quando seus olhos encontravam a floresta, uma única árvore era muito mais alta.

E o Caparaó se colocava então no alto da Montanha Sagrada, e de lá começavam a sentir o tamanho da Mãe Terra. Bonita, redonda, brilhante… Ao perceber o planeta inteiro com seu espírito, lá ia o Caparaó rumo ao céu, vendo a Mãe Terra diminuir cada vez mais.

E então, era o próprio céu. Conhecia todas as coisas e delas compartilhava. E toda aquela imensidão, se concentrava no corpo físico do Caparaó, que então via como humano, a beleza do silêncio eterno.

E o Caparaó compreendia então, que só podia sentir tudo aquilo, quem estava vivo. A vida, era o grande mistério, do qual o Caparaó se orgulhava, como o prêmio maior, o que realmente importava.

Descendo a Montanha Sagrada, eles iam se encontrando e, no centro da aldeia, contavam como tinha sido a grande visão. Era um momento de profundo e respeitoso silêncio, quebrado apenas pela voz do contador de histórias do momento.

A História de Um Povo

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Poço das Antas, Iúna/ES

Chegamos á parte final da História dos Caparaós. Nestes três posts (parte um, parte dois) você pôde acompanhar as aventuras da nação Caparaó, bem como seus costumes, hábitos, sonhos e crenças.

Apesar de ser uma história de ficção, se você pensar um pouco no que leu, verá que muito daquilo que os Caparaós “viveram” ainda é parte dos nossos sonhos de hoje. Um mundo cheio de esperança, fé, comunhão com a natureza, e claro, desafios diários na luta pela sobrevivência.

Leia a série completa nos links:

Convido você a vir conhecer o Caparaó, a Região ainda guarda lugares desconhecidos do grande público, e só um verdadeiro conhecedor destas terras poderá levar você e sua família até lá.

Meu nome é Ulisses, e clicando aqui você pode falar diretamente comigo pela WhatsApp. Vamos juntos planejar sua próxima aventura.

Roner Braga Padilha, o Autor

Roner Braga Padilha
Roner Braga Padilha (in memoriam)

Natural de Campos/RJ, Roner foi autor de inúmeras histórias, crônicas e Lendas do Caparaó. O autor foi professor, advogado, empresário e escritor durante os anos de sua vida em Iúna, onde viveu por mais de trinta anos até seu falecimento em 2014.

Professor Roner, como era chamado, foi um pioneiro do Caparaó e de Iúna, tendo sido um dos primeiros a mochilar por estas terras e descobrir as maravilhas que nela existem. Era um apaixonado por Iúna e pelo Caparaó.

É patrono da Academia Iunense de Letras (AIL) onde ocupou a cadeira nº 11. Foi militar, tendo servido no 38º BI em Vila Velha (ES). Recebeu título de cidadão iunense e foi fundador do Grupo Iunense de Amigos do Ambiente Natural (GIAAN).

Roner foi o autor da frase “Serra do Caparaó, A Montanha Sagrada do Brasil” quando do lançamento de um cartaz para o primeiro “EcoBike Amar Caparaó”, que foi um passeio de bicicleta em volta da Serra do Caparaó no ano de 1995.

Leia mais produções literárias do autor no Blog da Academia Iunense de Letras clicando aqui.

Leia a série completa nos links:

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A Serra do Caparaó vista em sua plenitude. Foto de Roner Braga Padilha (Anos 1990)

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segurança e aconchego no Caparaó.

Pedra da Tia velha, Irupí/ES
Pedra da Tia Velha (ou “Pedra do Altar”), Irupí/ES

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Fundador da Casa do Mochileiro

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